quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Daniel, o moço de Urubici

Durante alguns anos a abertura das jornadas esportivas da Rádio Clube de Lages iniciava com um jingle que dizia: É bola no chão, é bola no pé, é bola no ar, é bola na rede pra você vibrar... E a nossa equipe que é a mais forte vem aí pra falar de esporte... Em seguida reinava a voz imponente de Aldo Pires de Godói com uma narração de arquivo, que terminava assim: ... Daniel chutooou, bateu no poooste!, voltou para Daniel, bateu é gol! Goooooooooooooooollll do Internacionaaallll... E então o mestre de cerimônias da jornada iniciava oficialmente a transmissão.

Daniel. Me recordo dele das primeiras vezes em que fui ao estádio. Fazia uma meia-cancha com Bin e Vanusa, em um time que ainda tinha os alucinados Mica e Vacaria pelas extremas e Jones fechando pelo meio. Um timaço, e lá ia Daniel, às vezes meia, às vezes atacante, conforme pedia o jogo. Lembrava Doval, do Fluminense, loiros cabelos esvoaçantes rumo à meta inimiga.

Daniel foi descoberto pelo ex-diretor colorado Hamilton Buck, em 1978. Os juvenis do Inter enfrentaram o São José de Urubici pela antiga Copa Arizona. Tomaram de nove, cinco gols de um garoto chamado Daniel dos Passos Fritz. Buck não descansou enquanto não fez Daniel trocar os dias de trabalho em uma marcenaria pelos treinos no Vermelhão de Copacabana.Daniel e o irmão Luiz no São José de Urubici: 1978

Daniel esperava pelo primeiro treino, e o técnico ainda não o conhecia. Sentado no velho pavilhão de madeira, com o olhar distante, parecia mais um cantor de rock do que um jogador de futebol. O técnico perguntou ao descobridor de Daniel o que fazia aquele cabeludo sentado ali. Buck, que além de cartola era barbeiro por profissão, passou a navalha na conversa e respondeu seco: - Gols.

Gols, e Daniel fez muitos. Bola na rede, corria para o alambrado para comemorar com o torcedor. Camargo Filho fazia a festa na rádio e chamava o jovem artilheiro de o moço de Urubici. Foram felizes em sua união os torcedores colorados com o moço de Urubici. Brevemente felizes.


















Daniel com jeito de roqueiro e Jones: azar dos goleiros

Aos 26 anos, com toda a bola do mundo pela frente, Daniel parou de jogar futebol. Após uma dividida com o meia Motor, do Blumenau, no dia 8 de maio de 1983, Daniel foi ao chão, meio de lado. O adversário caiu em cima dele. Eram corridos 44 minutos do primeiro tempo. Daniel levantou e continuou jogando mais dois minutos, até o apito do juiz. Desceu as escadas do vestiário sentindo uma fisgada um pouco acima do abdômen. Sentou para descansar e não conseguiu mais levantar. Um mês depois, extraiu um rim. E não voltou mais a jogar futebol.

Hoje Daniel trabalha com controle de qualidade e passa o tempo livre pescando. Mora em frente às ruínas do Vermelhão. Com o mesmo olhar distante, se pergunta: - Como tudo isso pode acabar? Juntava gente para ver nossos treinos. Tem a voz mansa e sorri ao rever velhas fotos. Ao relembrar um gol o olhar distante se torna fixo, como se mirasse o canto em que o goleiro não está, e murmura: - Não existe nada igual a fazer um gol. Nada.

Diz que deve ter a gravação da narração que abria a transmissão dos jogos em algum lugar. Aponta para a foto na parede com o time posado, fala o nome dos companheiros e o pensamento se perde. De repente o olhar distante fica fixo de novo. Lembra de um chute tão forte que furou a rede. São dezesseis horas de uma tarde qualquer em Lages. O Vermelhão está em ruínas, o Vidal Ramos Júnior está vazio, a voz de Aldo Pires de Godói não ecoa mais. Daniel volta ao tempo em que fazia o que mais gostava. Gols.

(escrito em 3 de fevereiro de 2009)

A foto de Daniel e Luiz foi restaurada por
Marta F. Rajabally

5 comentários:

Adalberto Day disse...

Mauricio
Que belíssima matéria e homenagem ao Dniel. Grande goleador e que teve a carreira interrompida em uma dividida com jogador do Blumenau, e que depois caiu em seu rim....lamentável para o futebol. Mas aconteceu e nada pode ser mais feito, a não ser relembrar através de sua descrição uma justa homenagem a este valoroso jogador do Internacional de Lages.
Adalberto Day cientista social e pesquisador da História de Blumenau

Patrick disse...

História melancólica, mas baita texto! O Daniel teve que abandonar os gramados depois dessa partida e o Inter ainda perdeu o jogo. Foi dois a um pro Blumenau, em Lages. O Inter, de qualquer forma, acabou indo longe naquele ano. Chegou às semifinais, mas perdeu para o Avaí a vaga na final, vencida pelo Joinville.

Mauricio Neves disse...

É isso, Adalberto. Foi uma fatalidade, e é uma forma de reparar um pouco essas coisas que me move a escrever o livro.
Patrick, vamis invadir a RBS e roubar o arquivo pra ver a campanha de 83! Me lembro de cada golaço... E eles têm tudo desde 79.

Mauricio Neves disse...

Vou deixar aqui uma mensagem que o Gladimir, de Urubici, me enviou pelo Orkut. Não consegui responder a ele por lá, mas deixo o registro no blog: Maurício,

Sou de Urubici e moro atualmente em Lages.
Vi sua postagem qto ao Daniel.

Realmente, as pessoas que viveram aquela época admiravam muito o Daniel.
Naquela época, em Urubici, existiam dois times: Madureira e São José.

Acho que o Daniel jogou nos dois. Não lembro de existir muita rivalidade entre eles, mas eu era muito jovem, talvez não acompanhasse direito.

Mais ou menos na mesma época, saiu de lado outro jogador que se projetou no futebol catarinense: Tião.
Ele foi lateral esquerdo do havia durante muitos anos e depois encerrou a carreira em Tubarão, me parece que no Hercílio Luz.

Além desses, na década de 70 também tinhamos o Canhoto. Antes de se profissionalizar, sofreu um atropelamento e teve um dos pés mutilado. Afastou-se do futebol prematuramente, assim como o Daniel. Mas seria um outro excelente boleiro.

Abraço

yan e familia disse...

grande homanagen a este grande goleador e amigo daniel, todos que o conhecem iram se emocionar com este garoto de urubici.
abraços