O fato decisivo para evitar o fim do futebol colorado em 1955 aconteceu cinco anos antes, nas dependências do Grupo Escolar Vidal Ramos, quando o menino Rogério Ramos ganhou uma bola de futebol em um sorteio. E graças à persistência de Rogério, a bola virou um time, e o time virou uma paixão. Nasceu ali o vitorioso esquadrão juvenil do Esporte Clube Internacional.
As despesas do time – jogo de camisas, chuteiras para quem não tinha e lanche para comemorar as muitas vitórias – eram suportadas por uma economia feita por Rogério. Depois da escola, o jovem colorado trabalhava em um dos postos de seu pai, Tito Varela Ramos, e acumulava moedas que acabavam por constituir um fundo de incentivo ao time que era imbatível nas manhãs dominicais no campinho dos padres.
Era um time formado por amigos e colegas de estudo, mas Rogério não deixava de fortalecer o time com outros atletas. Assim foi que ao lado dele e de Plínio Maines, Antônio Celso Melegari, Áureo Malinverni e Aujor Branco de Moraes, perfilava o habilidoso Pinto, filho do coveiro Firmino, que chegou desconfiado daqueles meninos que se vestiam melhor e levavam os estudos a sério, mas que se entrosou assim que bola falou a língua universal do futebol.
O tamanho daqueles meninos franzinos era denunciado pelo diminutivo dos nomes Zequinha, Julinho, Laurinho. Logo a liga organizou um campeonato para a piazada e o Coloradinho foi campeão. Bicampeão, aliás. E invicto. As canelas finas se apoiavam em pés habilidosos e matreiros. Eles tinham em média treze anos quando passaram a representar o time de aspirantes do Inter. E foram novamente bicampeões.
Por trás daquele time unido e quase imbatível, estava a força de seu capitão Rogério Ramos, que marcava os jogos, organizava os treinos, pagava os lanches festivos e se entregava de corpo e alma quando a bola rolava. Mais do que um time vitorioso, os juvenis do Inter formaram um grupo de amigos que se reúne até hoje para relembrar os tempos de campo dos padres e Areião de Copacabana.
Tudo isso já seria o suficiente para orgulhar Rogério Ramos e seus companheiros. Mas em 1955, quando eles ainda eram aspirantes, os jogadores do time profissional do Inter abandonaram o clube em busca de melhores salários. Sem dinheiro, cogitou-se acabar com o Internacional. O que restava à diretoria era recorrer aos ex-juvenis e então aspirantes, para ao menos entrar em campo. Eles toparam, e mais do que isso, jogaram de igual pra igual contra os fortes times de Aliados, Vasco e Lages.
Graças à valentia daqueles meninos o Internacional sobreviveu para ser campeão municipal, regional e estadual. Por isso nunca é demais recordar que o time campeão de 1965 só existiu porque os juvenis estavam lá quando o Internacional mais precisou de quem amasse aquelas camisas vermelhas. Que Setembrino é precedido por Aujor, assim como Zé Melo por Plínio, Jones por Melegari, Bin por Zequinha, Kuki por Laurinho. E que se nesses 60 anos de história o Inter desenvolveu o dom de superar as dificuldades, muito se deve ao ato de coragem e paixão colorada de Rogério Ramos. Obrigado, grande capitão.
2 comentários:
"As canelas finas se apoiavam em pés habilidosos e matreiros" - que figura de linguagem mais linda! adorei, como sempre adoro teu texto. Um beijo!
Mauricio
Mais um belo conto, sobre as histórias do futebol lageano. Como é importante principalmente para a juventude poder reviver através de seu blog, esses momentos marcantes da história de muita gente que merece destaque.
Adalberto Day de Blumenau
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